Poesia de Alvares de Azevedo
Namoro à
Cavalo
Álvares de Azevedo
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada,
Pôs
lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil-réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que
esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na
janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel
bordado,
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas
furtado...
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de
acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia-
em casamento...
Ontem tinha chovido... Que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em
chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafues encheu de
lama...
Eu não desanimei! Se Dom Quixote
No Rossinante erguendo a larga
espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a
namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado,
Onde habita nas lojas
minha bela,
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a
janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes, tomou a
bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a
calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no
pagode,
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um
bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair, de meio
a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso
devaneio!...